No final de semana passado, revisitei uma das práticas que mais amo durante o treinamento para facilitadores: a do escutar, de verdade.
Não só com os ouvidos, não só com o corpo, mas com a alma.
Com presença, com inteireza.
Que experiência mais linda, mais profunda, e que deveria ser a de todos os dias.
Você já experimentou?

“A escuta de apenas dois ouvidos é uma coisa. A escuta da compreensão é outra. Mas a escuta do espírito não se limita a qualquer faculdade, ao ouvido ou à mente. Por isso, requer o vazio de todas as faculdades. E quando as faculdades estão vazias, todo o ser ouve. Há, então, uma compreensão direta do que está bem diante de você, que nunca pode ser ouvido com o ouvido nem entendido com a mente.” (Livro A Via de Chuang Tzu)

Compartilho abaixo um texto de Rubens Alves, que descreve de forma leve e objetiva a verdadeira escuta.
Experimente e sinta a diferença.

A Escutatória
“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer…

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as ideias estranhas). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto. Ouçamos os clamores dos famintos e dos despossuídos de humanidade que teimamos a não ver nem ouvir. É tempo de renovar, se mais não fosse, a nós mesmos e assim nos tornarmos seres humanos melhores, para o bem de cada um de nós.

É chegado o momento, não temos mais o que esperar. Ouçamos o humano que habita em cada um de nós e clama pela nossa humanidade, pela nossa solidariedade, que teima em nos falar e nos fazer ver o outro que dá sentido e é a razão do nosso existir, sem o qual não somos e jamais seremos humanos na expressão da palavra.

Rubens Alves

Milagres sempre,

Cátia Vasconcelos
Jogo Miracle Coice

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *