Eu acredito que a verdade, aquela que honramos e expressamos o que sentimos e o que pensamos, é um dos caminhos mais maravilhosos para a cura e o despertar. Porém, não é a jornada mais fácil e prazerosa, principalmente no início consciente dessa prática.

Quebrar padrões e hábitos sociais e encarar nossas mentiras pode ser um grande desafio. Afinal, quem de nós não aprendeu a mentir ou fingir, pelo menos um pouquinho, para ser educado, aceito, conseguir o que queria ou manter uma certa imagem?

Há uns meses escrevi aqui sobre Honestidade Radical (Radical Honesty), da qual sou fã de carteirinha! E esta semana tenho o prazer de compartilhar um texto lindo (e um tanto complexo, talvez você queira ler algumas vezes para digerir a mensagem) sobre uma verdade interior nua e crua escrito pela inspiradora mestra Gangaji, ou Antoinette Roberson Varner, discí­pula do mestre indiano Hariwansh Lal Poonja (1910-1997). O texto “O Coração Pode Suportar Tudo”, que segue abaixo, é um convite para nos despirmos completamente, olharmos nossas sombras, medos e máscaras. E tudo isso feito com muito amor, afinal é o caminho de volta à Essência.

Tenha uma linda jornada!

Cátia Vasconcelos

“O Coração Pode Suportar Tudo”
Por Gangaji

Como humanos somos treinados a mentir. Mentir é uma parte importante da sobrevivência. Estar disposto a dizer a verdade é arriscar perder tudo.

Quando você faz a escolha de se comprometer com a verdade, então a verdade é um mestre implacável. Esse compromisso vai expor cada aspecto daquilo que é oculto e cada justificativa para ocultar.

Nesse compromisso com a descoberta da completa verdade, deve haver um exame implacável de nossas mentiras. O que deve ser enfrentado é o que você pensa que seja a verdade sobre você mesmo, e como você tem mentido para si mesmo para encobri-la. Ao descobrir o que é que estamos negando, pode existir um espaço – um espaço que é o conduto para descobrir a verdade mais profunda.

Na maioria das vezes, se evita vivenciar a própria falta de valor. A maioria das pessoas suspeita que é a pior coisa que se pode imaginar, uma criatura de imperfeição, de feiura e de estupidez. Mesmo se houver o pensamento ou a experiência de si mesmo como uma criatura divina com um conhecimento superior e com plenitude de ser, por trás disso, desconfia-se que não haja nada além de uma alma distorcida, irredimível e perdida flutuando no espaço, separada de Deus.

Se você para aí – Eu sou essa coisa bruta, sem valor e inamável – a princípio parece intolerável. Começamos a mentir em cima disso, ou aprendemos afirmações, ou então fazemos uma maquiagem… qualquer coisa que não seja encarar a falta de valor. No entanto, só depois que essa aparente falta de valor fundamental for encarada e experimentada na sua totalidade, você será capaz de conhecer a absoluta verdade de quem você é.

Primeiro você deve contar a verdade sobre o que realmente quer. O que você realmente quer? Liberdade e iluminação? Verdadeiramente? Fale a verdade. Se você obtiver liberdade e iluminação, o que isso lhe dará? Talvez a resposta seja: “Vai me dar respeito, amabilidade, fama, felicidade eterna, poder ou alívio do sofrimento do mundo”. Ao dizer a verdade, você pode descobrir o que é realmente desejado. Você descobre o que você quer que a iluminação lhe proporcione. Geralmente não é uma verdade bonita, mas é necessário revelá-la para você mesmo.

Isso não é o fim. Há mais. Se você estiver disposto a dizer a verdade sobre o que a fama, a amabilidade ou a força lhe dará, você compreende o desejo por trás disso: pode ser algo como “todos irão me amar” ou “as pessoas finalmente verão quem eu sou e me darão o que eu quero”. E se você disser a verdade sobre o que isso vai lhe dar, então você começa a se aproximar daquilo que o desejo fundamental realmente é.

Você está disposto a dizer toda a verdade até o fundo das profundezas? Está disposto a desnudar o que sua vida realmente é, onde sua atenção realmente está, em nome da iluminação ou da paz? Está disposto a se humildar ao ver o mecanismo que que de fato opera por trás de nossas orações por iluminação e paz? Essa é a oportunidade para encarar o abismo; o enorme buraco que a maioria evita durante a vida, a insinuação de que você é menos do que simplesmente sem valor, de que você é realmente nada.

Nesse momento, surge a forte tentação de fugir de volta para a superfície emocional. Talvez haja um breve reconhecimento, para depois voltar à segurança da mentira. A mentira é mais confortável. Tem mais esperança, mais promessa. Imaginamos que, se formos nada, não existimos, e isso é assustador. Por isso, preferimos existir como algo sem valor que talvez possa desenvolver valor um dia, a existir como nada.

Se você for sincero na sua intenção de realmente saber a verdade, e se você estiver disposto que esse conhecimento da verdade seja a única coisa que lhe possa ser dada – nenhuma fama, nenhum reconhecimento, nenhuma felicidade, nenhuma isenção, nenhum amor universal – se você quiser a verdade tanto assim, então você está disposto a cair no abismo, a encarar o abismo com sua atenção total, a encontrar a verdade de que você é nada.

O convite é apenas para que você abandone todas as mentiras. Abandone sua consciência sobre elas. Sinta a queimação, a dor, o sofrimento, o pavor, a ilusão, a mentira e a tentação de enganar com algumas mentiras mais suaves. “Meu Deus, sou pior do que tudo aquilo, pior que nada”. E lá está o segredo, a grande revelação.

Encontrar o abismo é o círculo completo. É voltar para casa, voltar para si mesmo. O relato extraordinário de todos que encontraram o abismo lhe recorda deque o nada que você é, é consciência desperta, viva. Consciência desperta, viva e imersa em amor. Ser coisa alguma (no–thingness) é tudo que você buscava ao se definir como alguém que vale algo, ou alguém sem valor. Tudo que você buscava está aqui na profundeza do seu ser, por trás todas as mentiras. É o que tem sido buscado e aquilo do que se fugia o tempo todo! É a simplicidade e a pureza de quem você é, aqui agora e sempre.

A amplidão ilimitada que é a consciência, o coração dessa amplidão que é sua verdadeira natureza, pode suportar qualquer ideia, conceito e sentimento de quem você pensa que você é. Toda limitação. Toda dimensão do inferno. Toda dimensão do paraíso. Tudo. O coração pode suportar tudo isso. Não importa qual seja sua história, não importa quais sejam as suas circunstâncias, não importa quantas mentiras você contou ou encobriu, neste momento você tem a capacidade de voltar a si mesmo e descobrir a completa verdade do seu ser.

Tradução: Fernando Pereira (dharmalog.com) e Juliana Kurokawa

VÍDEO – A verdade como despertar

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