Fotos recortadas
por Marcelo Azevedo


Visitando a exposição do acervo fotográfico de Frida Kahlo, me deparei com fotos recortadas por ela. Nessas fotos, faltavam partes, personagens eliminados, que consequentemente valorizavam outros. Assim, Frida modificava a história contada naquela composição estática. Voltando a observar estas imagens mutiladas, me identifiquei com os sentimentos de ausência e perda. Pois nenhum recorte era discreto, sempre evidenciando que alguém fora arrancado do contexto.

A arte de Frida me fez pensar que, quando pessoas principiam dentro da nossa história de vida, geramos afetos (positivos ou negativos), que se ligam às nossas expectativas presentes e futuras, que fazem nexo em nossa construção mental.

Caso, num determinado momento, uma pessoa pela qual temos afetos nos falta, ocorre como a mutilação das fotos futuras. Sim, aquelas imagens que criamos com base em nossas expectativas e desejos do vir a ser. Com a perda, essas fotos mentais tiveram suas histórias modificadas. E assim, sofremos por estarmos apegados às fotografias do “viria a ser”, lindamente emolduradas.

Utilizando a carta de Identidade número 14 do jogo Miracle Choice, podemos ler em sua frase de “restrição autocentrada” o seguinte:  “Ninguém me agradeceu pelo que fiz. Estou cansado de não ser reconhecido.” Esta frase sugere que as expectativas são como investimentos de alto risco que esperam retorno, e para quem tem aversão ao risco, a frustração é dolorosa com perdas emocionais. E assim lamentam o investimento sem o retorno desejado.

Seguindo minha metáfora inicial, muitas fotos criadas em sua mente não valem como aposta de futuro e são agora apenas fontes de frustração. Na mesma carta 14, temos a segunda parte, a Chave do Milagre, que sugere:  “Quando eu libero as pessoas dos papéis que acredito que elas devam desempenhar, eu naturalmente as aprecio.” Se pudermos separar todas nossas expectativas e papéis que criamos, reconhecendo que são criações pessoais e que nada têm da outra pessoa, podemos refrear parte do sofrimento reduzindo a abstração com as fotografias mentais emolduradas. A Chave do Milagre convida-nos a adjetivarmos individualidade, a jornada pessoal e espiritual da pessoa de nosso afeto.

Assim, poderemos nos desapegar de nossas criações e apreciar não uma foto que nunca acontecerá, mas sim, valorizar o retrato individual da pessoa, respeitando suas escolhas passadas e agradecendo a oportunidade de ter compartilhado um tempo com um ser, que lhe ensinou por espelhamento, seus desejos e que agora podem e devem ser vivenciados em você mesmo. Desta maneira, apreciamos e honramos a memória de quem não está mais próximo fisicamente, mas ao alcance da memória num raro retrato, porque é único.
MARCELO AZEVEDO – Facilitador Certificado Miracle Choice.

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